

Alexandra Ferreira
Vencedora classificada em sétima colocada no Concurso Literário Caneta Vip
O Carnaval e a Poesia
Na minha juventude, os desfiles carnavalescos
eram singulares. Os foliões enroupavam fatiotas
excêntricas e adornos bizarros, desfilando, ao som
de música alegre, pelas ruas coloridas de confetes
e serpentinas.
No Carnaval ninguém leva a mal. Este provérbio
abençoa a celebração dos excessos, da transformação,
da farra! A liberdade de podermos
desregrar-nos sem julgamento, de sermos
quem quisermos ser, sempre me fascinou!
Quando a Silvana ligou a convidar para o baile de
Carnaval, fiquei radiante. Há alguns anos que não
me disfarçava! Após os primeiros minutos de
euforia, o pânico abraçou-me. Questionei-a:
— Vai ser um evento requintado?
— Minha querida, não mudaste nada!
— Emagreci. Os vestidos bailam no meu corpo… —
gracejei.
— Como te odeio, os meus sentem-se oprimidos.
O calendário acelerou o passo até a noite da folia.
Vagueio pela casa impaciente. Tenho de me
aprontar, mas continuo indecisa. A imaginação
desacompanha-me na escolha.
Um livro desalinhado na estante desperta-me.
Pego-o. Os olhos sorriem. Corro até ao quarto de
vestir. Abro a porta do guarda-fatos. Localizo o
vestido de fazenda azul inglês com folho branco.
Deixo deslizar as calças até ao tapete e atiro com a
camisola para o sofá. Visto-o. As formas direitas
disfarçam a ausência de curvas. Penteio o cabelo
com risco ao meio. Coloco o colar de pérolas.
Retoco os olhos e pinto os lábios de carmim. Calço
os sapatos altos, ponho o chapéu da avó. Por fim,
envergo o casaco de pele castanho.
Saio de casa confiante. A personagem que encarno
é uma mulher que idolatro.
A aragem da noite acolhe-me com carinho.
Caminho com passos firmes até ao Palacete,
agradecendo o calor do agasalho. Em frente ao
edifício vacilo. A porta abre-se e o porteiro
anuncia-me:
— A poetisa Florbela Espanca!
A música suaviza, o burburinho aquieta-se, uma
pequena multidão de olhos pousa sobre mim. A
Silvana acolhe-me.
Um cavalheiro aproxima-se. Suspendo a
respiração, quando vejo que é o Fernando Pessoa.
— Florbela dança?
— Sim, danço.
Bailamos e sambamos até ao raiar da aurora.
Regressamos abraçados a minha casa, declamando
poemas... namoriscamos. Entregamo-nos à paixão
até que exaustos adormecemos. Despertamos com
os corpos nus colados. Voltamos a enroupar as
fantasias carnavalescas. Revivemos a magia da
noite anterior, enquanto desfrutamos duma refeição
ligeira. Brincamos com a invulgar escolha que nos
aproximou – fantasiarmo-nos de poetas.
Ao entardecer, pego no meu caderno de capa
xadrez, encosto a cabeça no ombro do Pessoa e
escrevo o meu primeiro poema, O Despertar
Poético.

Minibiografia


Vive no Porto e tem um filho. É Engenheira Civil e Mestre em Engenharia Rodoviária.
A escrita é uma paixão antiga. Publica em revistas, é colunista no Blog Contos de Samsara, cronista no Clube dos 7 e membro dos Clubes Escreviventes e Transatlânticos. Publicou o romance Sombras com Rosto, os livros de contos Um Verão Sem Ti e Folhas Soltas e em Antologias (Cartas de Amor, Contos de Natal, Saudade. Lisboa Encantada, Flor dos Amores, Porto – Uma cidade com alma, Ensaios Poéticos).
